Jece Valadão - "O Machão Arrependido"

O ator brasileiro que mais filmes participou, marcando uma época pelos seus comentários machistas, o ex -”cafajeste” e agora pastor da Assembléia de Deus do Bom Retiro (São Paulo), Jece Valadão, mostrou que realmente foi transformado pelo poder de Deus dando um impressionante testemunho da mudança que Jesus operou em sua vida.

É muito difícil fazer de um homem que se julga o mais completo e privilegiado do mundo uma criatura humilde. A história de Jece Valadão tem provocado um verdadeiro furacão em todos os meios, e é apenas uma pequena porção dela que vamos narrar...

Resumindo minha personalidade e caráter, posso dizer que eu era um homem que me bastava.

Vencedor na carreira artística, sempre tive tudo quanto imaginei que me traria felicidade: dinheiro à vontade, viagens pelo mundo inteiro, uma filmografia invejável em qualquer parte do mundo, sobretudo no Brasil, num total de 106 filmes, além de 50 peças teatrais e uma atuação marcante na televisão. Casado cinco vezes, tive as mulheres mais lindas do Brasil, e uma família normalíssima, composta de nove filhos e três netos.

Sendo tão auto-suficiente, não me importava com Deus, nem acreditava em Jesus ou no diabo. Considerava Jesus um extraterrestre dotado de conhecimento e cultura muito superiores aos nossos, e que pousara na Terra há 2.000 anos, numa nave espacial, tendo feito mágicas e coisas surpreendentes, sendo em razão disso transformado em Deus, por um povo ingênuo e ignorante. Quanto a Deus, era para mim um ser tão distante e inacessível, que não provocava em mim o menor interesse. Quanto ao diabo, não me dizia nada: a meu ver não passava de fruto da imaginação e da fraqueza humana.

Eu era tão auto-suficiente, que não via razão nenhuma para almejar outra espécie de vida. Vivia sobre o tripé sexo, amor e dinheiro, cheio de empáfia, repleto de alegria de viver. E se alguém julgar que lá no íntimo sentia um grande vazio, engana-se: isso não acontecia comigo! Só que eu ignorava que havia alguém mais poderoso que eu, e que resolveria mudar radicalmente a minha vida - querendo eu, ou não querendo...

Como não acreditava em Deus nem no diabo, para este a situação era muito cômoda. Se por um lado descria dele, por outro lhe regalava gols homéricos, com os personagens que criava no cinema, no teatro e na televisão, e a filosofia completamente incompatível com a graça de Deus. O terrível é que com essa atitude eu ia rapidamente formando uma legião de admiradores no Brasil inteiro.

Encontrava-me um dia no meu escritório - era o quinto dia útil do mês, 9h30 -, quando o telefone toca e minha secretária me diz: "Seu Jece, D. Vera Giménez". A Vera Giménez, essa criatura maravilhosa, linda, que hoje amo muito, foi minha quarta mulher, e com ela tenho um filho de 18 anos. Ela era a única pessoa com quem me atritava, a única de quem não suportava ouvir a voz, o mesmo lhe acontecendo com respeito a mim.

Nossa vida era tremendamente tumultuada em razão do telefone, pois ela telefonava porque tinha de resolver o problema de um filho que não tem culpa de haver nascido. Eram berros e palavrões do lado de cá e do lado de lá, e no intervalo ela conseguia dizer o que tinha de ser dito: sua pensão alimentícia, obrigação que não entrava de jeito nenhum na minha cabeça.

Aquele era o quinto dia útil do mês um dia fatídico! Tremendo na base, atendi o telefone já com um berro: "Alôooo!...""Oi, querido, tudo bem?"- responde uma voz macia. "Mas quem tá falando?"- pergunto "É a Vera, Jece". "Mas o que é? Tá doente, Vera?" "Não tô doente, não; eu tô bem". "Como tá bem, Vera?!... Você sempre deu um berro do outro lado. Tô esperando o berro, e não veio!..." "Pois é...Mas agora eu não berro mais não.

Você tá com problema, Jece?" "Claro que tô com problema! Hoje é dia de pagamento, inclusive da sua pensão alimentícia!..." "Ah, querido, a minha pensão, se você não puder mandar hoje, posso esperar "Mas é a Vera Giménez mesmo que está falando? Você só pode estar me gozando... Não é possível!" (Ela já tinha me mandado prender três vezes porque eu atrasara a pensão!) "É, sou eu mesma!" "Mas o que houve, Vera?" "Ah, querido, se você está com problema eu posso ajudar. Conheci alguém, Jece, que fala com o Espírito Santo". "O quê? Você ficou maluca?" "Fala, sim, Jece. Vou lhe dar seu telefone." Talvez para me livrar dela, aceitei que me passasse o telefone, e o anotei. Desliguei e liguei pra lá. Mas o telefone tocou, tocou, e nada: ninguém atendeu. Então pensei: "A Vera ficou louca mesmo: o telefone não existe!..."

Continuei meu trabalho. Meia hora depois ela liga novamente: "Oi, querido. Telefonou?" "Sim, mas esse telefone não existe: ninguém atende." "Então vou te dar um outro telefone: de um líder cristão aqui do Rio." "Não! Cristão, não!" "Mas esse é maravilhoso, Jece. Ele conhece você."

A Vera insistiu tanto que resolvi ligar para ele. Atendeu uma senhora, que me avisou que ele estava almoçando. Quando o pastor ouviu meu nome, interrompeu o almoço e veio me atender.

Ele então falou: "Oi, Jece, qual o problema?" "Não tem problema nenhum, pastor. Foi a Vera Giménez que me disse que ligasse para o senhor. E eu nem sei o motivo por que estou ligando..." "Você é que pensa que não tem problema!" "Oh, pastor, vai agourar a minha vida agora?" "Não, meu filho!

Olha, eu acompanho a sua vida há muito tempo. Você já ouviu falar no espírito devorador?" "Não, nunca fui apresentado!" "Pois há muito ele está grudado em você. Você pode ganhar um milhão ou dez bilhões: ele devora tudo!" "Pastor, se esse espírito está tomando tudo que eu ganho, então o que a gente pode fazer pra dar uma rasteira nele? Vamos derrubar esse cara!" "Posso orar por você, meu filho?" "Pode...Manda brasa, pastor. Reza aí..."

"Antes de orar eu vou lhe dizer uma coisa, Jece: Jesus te ama!" "Que é isso, pastor? Como é que esse cara pode me amar, se o tenho negado a vida inteira? Sempre achei que ele é um ET!" "Não importa, Jece. Jesus está dizendo que te ama, e muito. "Tá bom, pastor. Então começa a oração!"

E o pastor começou a orar. E aquele negócio de 'Jesus te ama' não entrava na minha cabeça, pois se eu não amo alguém, como esse alguém pode me amar?... E o pastor continuando a orar, e orar. De repente a oração começou a me pegar. Subitamente retirei os pés de sobre a mesa, me colocando numa postura mais adequada. E aquele pastor orava com tanto amor, tamanha unção, que sua oração começou a balançar as minhas estruturas, a mexer com meu interior. De súbito me vi chorando como uma criança.

Quando ele acabou de orar e deliguei o telefone continuei a chorar sem parar. De repente fui tomado por uma paz intensa, como jamais sentira. Subitamente senti como se a mão de alguém houvesse aberto uma janela enorme à frente, que sempre estivera ali, mas eu nunca vira. Através dela vi então uma paisagem divina, maravilhosa: Então me disse: "Meu Deus, tô ficando louco!"

Naqueles instantes minha estrutura se esfacelou. Como um castelo de areia, tudo caiu por terra, e me pus a perguntar sobre tudo quanto pensara e em que acreditara a vida inteira.

Fui para casa, e por primeira vez na minha vida, aos 65 anos de idade, abri uma Bíblia. Nunca tivera essa curiosidade. E fui lendo, e lendo, e lendo, cheio de um apetite enorme, chegando à conclusão de que a Bíblia é o melhor livro do mundo.

Foi quando me convidaram a ir a uma reunião da Adhonep, e lá pessoas fizeram um círculo à minha volta e oraram por mim. De repente senti novamente aquela paz que experimentara em meu escritório, e de novo me pus a chorar sem parar. Chegou um ponto em que não suportando mais, disse: "Eu quero esse Jesus!"Abri o coração e Jesus entrou. Que maravilha!

Ao entrar Jesus no meu coração, comecei a pensar de maneira diferente. E me disse a mim mesmo: "Passei 65 anos negando radicalmente a Jesus; agora vou ser mais radical ainda, só que a favor dele. Vou assumi-lo na televisão, num programa de grande audiência, via Embratel. Vou dizer que este pecador é agora filho de Deus; que Jece Valadão é de Jesus.

E foi isso que fiz.impacto foi tão grande que o Senhor me disse que não haveria tempo para me preparar: teria de sair no dia seguinte para levar sua Palavra. Mas isso não é tudo. Apesar de convertido eu continuava com preconceitos terríveis contra o povo de Deus - principalmente quanto a dízimo. Um dia fui a uma reunião da Adhonep e nela foi apresentado um desafio aos presentes: deveriam escrever um pedido sobre algo que julgassem impossível de ser atendido. Ao chegar minha vez, escrevi: "Jesus, estou enfrentando um problema muito sério de umas duplicatas no Bamerindus. Resolve-o. Jece Valadão".

Após a oração rasgaram-se os papéis e eu saí dali satisfeito, pensando: "Aqui eu fico: nada de batismo, dízimo ou igreja!" No dia seguinte a minha secretária me avisou: "Sr. Jece, o gerente do Banco Bamerindus quer falar com o senhor". Quando liguei para ele, ele me disse: "Venha para cá, porque o negócio vai melar hoje!"Peguei o carro e fui às pressas até o banco. O gerente-geral nem quis me atender (Quando o vi, notei que disfarçava, me olhando de esguelha). "Qual o problema?"- perguntei. "Suas duplicatas estão vencidas; têm que ser pagas hoje!" "Em quanto está o valor?" "O total é de 90.000 reais.

Acrescentando juros e cálculos podemos fazer em 12.000 reais por mês, em 9 meses." "Mas isso é impossível!"- contestei. "Então vamos acioná-lo." "Você pode me dar 24 horas?"- perguntei. "Tudo bem." Peguei o carro e fui para o escritório. No caminho me lembrei do pedido que fizera a Jesus: "Ô Jesus! Fizemos um trato, e já na primeira vez você falha? Dá um jeito!" De repente me acendeu uma luz: ligar para o ministro da agricultura!

E foi o que fiz, logo ao chegar ao escritório: "Quem fala? Queria marcar uma audiência com o ministro!". Pensei que a moça que atendera dissera "Um minutinho" a fim de anotar alguma coisa. Contudo alguém falou do lado de lá: "Alô!" "Quem está falando?"- perguntei. "É o ministro." "O ministro José Andrade?" [o dono do Bamerindus] "Qual o problema?" "O problema é que lhe estou devendo, e não tenho dinheiro para lhe pagar!" Passaram-se alguns minutos de silêncio absoluto, após o que lhe contei o caso das duplicatas. Então ele disse: "Jece, não vamos perder tempo. Ligue para o banco e peça o telefone do Diretor Regional de São Paulo. Enquanto isso ligo para ele e lhe aviso". "Muito obrigado, ministro." "De nada."

Quando liguei para o gerente regional, já avisado pelo ministro, recebi a comunicação de que teria uma reunião no dia seguinte, às 14 horas. Ao chegar lá o gerente geral me disse: "Qual o problema, Jece?" "Minha dívida com o Banco." Após examinar a papelada ele acrescentou: "Isso está certo. Tem que ser pago". "Concordo, só que numa forma em que eu possa." "Tem alguma sugestão?" "Acho que tenho a solução. Tenho um programa na TV Manchete chamado 'São Paulo On Line', que não tem patrocínio.
O programa necessita de patrocínio, e o Banco precisa anunciar e também receber. Podemos fazer uma jogada com isso." "Jece, veio mesmo a calhar! Estava imaginando onde arrumar um programa local para valorizar o cliente regional do Bamerindus! Maravilha!"

Ele me deu a mão, fechou o negócio, e eu paguei toda a minha dívida, sem ter um único tostão! Nunca mais largo esse Jesus!


- Por que você decidiu se converter à Igreja Evangélica?

Sempre fui ateu, materialista, nunca acreditei em nada. Achava que Jesus era um extraterrestre que pousou no Oriente, fez algumas mágicas e o povo, na santa ignorância, o transformou em Deus. Minha concepção de Deus era de um ser inatingível, que não me interessava. Eu só acreditava em mim. Isso até o ano passado, quando Jesus resolveu me buscar. Foi um toque dele realmente.


- Mas como aconteceu de fato?

Foi incrível, num quinto dia útil do mês, um dia fatídico para todo empresário, dia de pagamento de salário, aluguel, telefone, luz. Eu estava no meu escritório e às 9h30 a Vera Gimenez, minha quarta esposa, com quem tenho um filho de 18 anos, me ligou. Ela era a única pessoa com quem eu me atritava. Nesse dia ela estava tranqüila, dizendo que tinha conhecido uma pessoa que falava com o Espírito Santo, a Tia Laurinha. Eu disse que ela tinha enlouquecido.

Vera insistiu, dizendo que queria renovar o contrato com a Globo, que estava sem dinheiro, com problemas, mas feliz da vida, e me deu o número de um pastor no Rio, que fez uma oração para mim ao telefone. Eu chorei. Comecei a sentir uma paz que nunca tinha sentido, uma sensação agradável. Não foi uma simples oração e sim um toque de Jesus que me converteu. Hoje não brigo com a Vera, passei a amá-la. Depois desse dia fui conversar com pessoas que já conheciam Jesus.


- Eram pessoas ligadas à alguma igreja?

Procurei no início a Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno, a Adhonep. Você pode ser católico, batista, de qualquer religião e ser da Adhonep, fundada em 1952 por um fazendeiro americano que teve uma visão de Deus e começou a fazer reuniões com homens de negócios, sempre para falar da Bíblia e dar testemunhos de vida. Hoje está em 132 países e no Brasil tem 600 núcleos, com uma matriz no Rio. Seu presidente internacional é um brasileiro. Há homens e mulheres participando, geralmente de alto poder aquisitivo, que convidam todos a receber Jesus.


- Você lançou um vídeo através da Adhonep, no qual dá o seu testemunho. Por que o título O cafajeste de joelhos?

Sempre carreguei o estigma de cafajeste e essa foi a maneira de demonstrar minha conversão. Nada mais justo que estar de joelhos diante de uma nova postura, de um novo Senhor. As fitas são vendidas em jantares da Adhonep a R$ 15. Em dois meses vendemos 6 mil cópias.


- Depois da Adhonep você se engajou em alguma igreja?

Me engajei, mas não por exigência e sim por opção. Conheci um pastor em São Paulo da Igreja Época da Graça, pentecostal, que tinha a ver com o meu temperamento. Não é tradicional, onde tudo é proibido, é mais aberta, moderna, renovada. É a igreja que freqüento.


- Na igreja pentecostal os homens têm papel superior ao das mulheres?

Na pentecostal não existe separação. O homem não vale mais que a mulher. A mulher só valia menos na minha concepção de ímpio. Hoje para mim a mulher vale tanto como o homem. Nego radicalmente a filosofia e a imagem de machista que sempre defendi.


- Como essa figura do cafajeste e machão surgiu?

Começou com Rio 40 graus, em 56, o primeiro filme em que fiz o papel principal, do Nelson Pereira dos Santos, que revolucionou o cinema brasileiro. Depois fiz Rio Zona Norte e em seguida produzi o filme Os cafajestes. Chamei o Ruy Guerra para escrever o roteiro e disse que queria um personagem cafajeste, um estado de espírito bem brasileiro, que não tem tradução em nenhum idioma. Ele veio complementar meus dois primeiros filmes e foi exibido no mundo inteiro. Depois passei a explorar essa marca, esse marketing, que se transformou num estigma.


- Depois da conversão, como essa marca se diluiu na sua vida? Houve, através da religião, a tentativa de se afastar do papel de cafajeste?

De forma radical. Para você ter idéia, eu não era alcoólatra, mas numa sentada bebia um litro de uísque. Hoje não sinto falta de bebida. Não quis me afastar de papel nenhum porque estava muito satisfeito com a minha vida. O que acontece é que a maioria dos homens só procura Deus quando está no fundo do poço. Não foi o meu caso. Eu não tinha problemas de dinheiro, saúde, família, de nada.


- Você acredita que, às vésperas da virada do século, ainda haja espaço para a figura do machão?

Não. O machão é um tremendo antiquado. Estou me referindo ao machista. Porque o macho, como a fêmea, vai ter sempre o lugar dele. Todo ator conhecido tem um estigma, uma marca pessoal e essa foi a minha.


- O cinema destrói a vida do ator, transformando-o numa mercadoria? Isso aconteceu com você, com a caracterização desse estigma?

De jeito nenhum. O cinema não destrói e sim acrescenta à vida do ator. Você não pode é criar um personagem esquecendo da sua personalidade. Fiz 106 filmes e em cada personagem havia uma marca da minha personalidade. Mas acredito nesse rótulo de mercadoria sim. E esse é o meu grande medo da televisão, que consome demais o ator. Projeta e destrói com a mesma rapidez. Por isso tenho rejeitado papéis com receio de me transformar numa peça de engrenagem da TV. No cinema não. Você leva muito tempo para fazer um filme e quando ele estréia é como um filho.


- Com esses novos valores, acredita na mudança da relação homem-mulher?

Totalmente. Ela mudou a partir da pílula anticoncepcional. A partir do momento em que a mulher passou a transar sem o risco de engravidar, passou a ser independente, dona da sua vontade. A isso somaram-se conquistas sociais, apesar de a mulher não ter se libertado totalmente dos preconceitos. Eu acreditava na valorização da mulher, mas torcia para que ela não se valorizasse, pois a usava como instrumento do meu trabalho.


- Como era esse uso?

Em frases feitas. Por exemplo: "Toda mulher normal gosta de apanhar do homem certo na hora certa." Ou: "Mulher minha tem direito a três frases, 'pra dentro, criança', 'xô, galinha' e 'sim senhor, meu marido'.


- Isso em parte não era um folclore?

Sim, mas era um folclore que virava verdade. Essa filosofia criou legiões de seguidores. Era impressionante como os homens vinham me cumprimentar. O que eu fazia era um negócio perverso, alimentando um desejo que todo homem mantém intimamente de sobrepujar a mulher.


- Será que os homens fazem isso por medo das mulheres? Um medo de amar?

É por medo sim . Tanto que está provado que quanto mais a mulher fica independente mais os homens se acovardam. Os homens têm medo de serem suplantados. Seria ideal se fosse de igual para igual.


- O homem tem sempre que ter um bom desempenho no trabalho, na cama. Isso não é um peso?

O homem não tem um bom desempenho na cama, a maioria das mulheres é insatisfeita sexualmente. O desempenho como macho na cama frustra a maioria das mulheres. Hoje a gente sabe que a maioria das mulheres não atinge o orgasmo por culpa do homem, que é muito egoísta.


- O homem tem mais desejos sexuais do que a mulher?

Sempre achei isso, até porque o homem como macho, dentro do conceito do reino animal, é assim. Uma ejaculação dá para povoar o mundo, enquanto uma mulher só pode botar uma pessoa no mundo por ano. Tudo isso é da natureza, mas achava que a mulher só devia ter relações para procriar. Hoje penso diferente, num sexo diferente. Antes o sexo era coisa animal. Eu nunca fui fiel às minhas mulheres. Batia quando a mulher pedia, senão eu seria sádico com uma masoquista. Hoje se uma mulher me pedir para bater não sei o que farei. Só sei que não pulo mais a cerca. É mais gostoso conquistar a mesma mulher todos os dias do que conquistar uma mulher por dia. Antes eu era insatisfeito, não tinha paz dentro de mim.


- Por que acha que representaram Deus como homem e não como mulher?

Uma boa pergunta. Eu acho que a mulher foi um complemento inicial, mas que depois se tornou absolutamente necessário. Hoje o homem tem que admitir a mulher como uma parceira.


- As religiões sempre policiaram muito as mulheres, não?

Sim. O apóstolo Paulo era machista. Se o conhecesse antes, o usaria como argumento para maltratar as mulheres. Ele diz que a mulher tem que obedecer o homem, ficar calada e não dar opinião. Cuidar dos filhos é tarefa masculina?Cuidar é, mas mudar a fralda é tarefa da mulher.


- Sua mulher também se converteu?

A Kátia também se converteu. Não daria para misturar água com vinho. Sou casado com uma mulher que nem sei se gosta tanto de mim assim, mas é minha mulher, mãe do meu filho. Já traí Kátia várias vezes em 11 anos de casados. Ela teria razão de não me amar tanto por tudo que está acumulado em seu espírito.


- E como é o relacionamento com os seus filhos? Você tentou converter algum deles?

Tenho nove filhos. Estou tentando convertê-los, mas é difícil. O de 9 anos, o Jecinho, já está estudando a Bíblia. A Vera e o nosso filho Marco Antônio, tenho esperanças. A Stella e o Beto estão mais arraigados. Meu relacionamento com eles é maravilhoso, sou um pouco ídolo de todos.


- Você foi cunhado de Nelson Rodrigues. É verdade que ele o considerava um cafajeste de primeira linha?

Ele me considerava um cafajeste mesmo. Me achava excelente ator, rodrigueano, mas não admitia o fato de eu ser seu cunhado. Achava que eu estava dando o golpe do baú.


- Como tem sido o seu dia-a-dia depois da conversão?

Seis dias por semana falando de Jesus, cada dia numa cidade diferente. Às segundas-feiras vou a São Paulo, troco de mala e terça saio para outro lugar. Despacho rapidamente no escritório e controlo tudo pelo celular.


- Nessas suas andanças o que você faz exatamente?

Dou um testemunho de vida para ganhar almas para Jesus, porque o arrebatamento está próximo. O dia em que Jesus vai voltar, que está escrito na Sagradas Escrituras. Jesus vai voltar para a felicidade plena, a subida de todos aqueles que tiverem Jesus no coração.


- Recentemente, trabalhou em Tieta, de Cacá Diegues, vivendo o capitão Dario. Fale sobre o personagem.

Era devasso e bem condizente com o que pensava antes. Me converti e surgiu o drama. Não sei por que cargas d'água Cacá Diegues resolveu mudá-lo, dar outro perfil. O que tinha três mulheres passou a ser solteiro e defensor da ecologia do Mangue Seco. A mudança não teve nada a ver comigo. Fui surpreendido.


- Você vai lançar em agosto o livro Jece Valadão, memórias de um cafajeste. É verdade que enumera as mulheres que você teve? Não é uma atitude cafajeste?

Conto toda a minha vida no livro. Não tenho nada para esconder. Mas quando escrevi o livro não estava convertido. Consegui depois acrescentar o capítulo da conversão. Foi a única maneira de o livro sair e não causar impacto entre os que me têm hoje como um homem temente a Deus. No final eu declaro que Jece Valadão morreu em 1995 e renasceu uma nova criatura.


- Você fala, no livro, sobre as mulheres que o rejeitaram? Isso já aconteceu?

Já e descrevo com detalhes. Contratei a Norma Bengell, que trabalhou comigo em Os cafajestes, para comê-la e ela resolveu não me dar. Quando me convenci disso, tirei o time de campo. Até o dia em que nos reencontramos em outro filme. Num intervalo de filmagem eu estava na piscina, na casa do produtor, quando Norma, aquele monumento, caiu na água, me abraçou e disse: "Vou dar pra você hoje."

Mas eu não funcionei. Naquele dia não consegui e no dia seguinte ela disse: "Agora não quero mais." É verdade que tirou a virgindade de 12 mulheres? É motivo de orgulho?Tirei a virgindade de 14, mas hoje isso é motivo de arrependimento. Deus é o verdadeiro prazer. Que prazer pode existir em fumar, cheirar pó, pegar uma virgem, desvirginá-la e deixá-la no mundo? Isso é excrescência, não prazer.


- Você hoje faz parte da Associação dos Artistas de Cristo, criada por Dedé Santana?

Não e não quero fazer parte. Eu só tenho trato com Jesus.


- É verdade que serão produzidos discos e filmes com temas evangélicos, entre eles Justiça divina, no qual você vai contracenar com Mara Maravilha?

Não tenho nenhum compromisso com isso e não me falaram nada. Posso até fazer um filme evangélico, para ser visto pelos ímpios. Só não farei filmes iguais aos de antes da conversão. Não renego os que fiz porque acreditava naquilo. É como o apóstolo Paulo quando batia, matava cristãos, convicto de que fazia o certo. Depois se converteu de maneira parecida comigo. Jesus apareceu e ele mudou.


- O que acha das denúncias contra o bispo Macedo? Ele arranhou a imagem das outras correntes evangélicas? Você dá colaborações financeiras à sua igreja?

Não tenho capacidade para julgar o bispo Macedo. A Bíblia diz que você conhece a árvore pelos frutos que dá. Não julgo ninguém porque Jesus foi julgado e crucificado há 2 mil anos. Não estou comparando o bispo Macedo com Jesus.

Só quem pode julgar é Deus. Respeito a Igreja Universal pelos 5 milhões de seguidores, buscados na umbanda, na macumbaria, que são coisa do diabo. Só essa igreja tem meios de buscar essas almas. Toda igreja vive de dízimos, como a Católica, uma das maiores concentrações de renda do mundo. O dízimo é bíblico.


- Você dizia não gostar de homossexuais. Mantém essa posição? O que acha da legalização da união entre pessoas do mesmo sexo?

Não penso mais assim. Se tivesse um filho gay faria o possível para convertê-lo, mas jamais daria bolachas até ele deixar de ser gay. Hoje admito e entendo perfeitamente que o gay é um apanhado do diabo, coitado. A legalização da união homossexual é uma aberração.

Entrevista concedida por Jece Valadão ao repórter Sócrates Nolasco, na Revista Domingo, do Jornal do Brasil, de 7 de julho de 1996.

 

 

 


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